Uma vida de desperdício
Grandes expectativas
Anote o que estou dizendo: todos querem uma vida de desperdício. Todos. Uma vida desperdiçada pode ser uma tragédia ou pode ser uma vitória, e ninguém sabe a linha que divide as duas coisas.
A razão pela qual eu digo isso é a seguinte, todo luxo é um desperdício, simples assim. Tudo o que é luxuoso é descartável. Ninguém usa um relógio de ouro para ver as horas. Quanto mais você pode desperdiçar sua vida com alguma coisa, mais status você arrecada para si mesmo.
Nossa economia inteira é baseada no desperdício. Todos nós estamos nos esticando para gastar o máximo que pudermos com coisas com as quais poderíamos passar sem. Fazemos isso a ponto de cruzarmos o limite do razoável e burlamos todas aquelas regras de itens “necessários” para sobrevivência, itens “importantes” e “descartáveis”.
Eu (moi) percebi isso tarde demais para mim mesmo. Eu sou um acúmulo de desperdícios, o que significa dizer que sou um acúmulo de luxo. Eu sou miseravelmente luxuoso. Eu não planejei isso, exatamente, mas creio que estou perto de ser pendurado em uma galeria artística — daquelas que quase ninguém vai e só tem coisa estranha, mas, enfim, é isso o que é arte hoje em dia.
Sou formado em filosofia. Não sou PhD, o que significa que sei muito pouco a respeito de muita coisa coisa inútil. Na graduação, a gente não tem tempo de estudar nada direito, é tudo uma “breve introdução” ou “sobrevoo”, como nas viagens da CVC.
Se eu fosse um doutor em filosofia, eu não estaria mais orgulhoso de mim mesmo. A diferença é que eu saberia muito de um assunto muito específico e muito mais inútil. Como PhD, eu poderia, por exemplo, ter escrito trezentas páginas sobre o primeiro parágrafo do capítulo cinco de algum livro de John Locke.
E isso é muito luxuoso.
Não é como dirigir uma Ferrari — isso é muito capitalista, apesar de que os livros estejam custando quase que um jogo de pneus.
A classe média que nasceu a partir dos anos 80, aprendeu a sonhar que ela poderia ser o que ela quisesse. Mas ela não podia. Milhões de millennials, eu inclusive, crescemos achando que poderíamos seguir nosso sonho. Bem, obviamente nosso sonho seria uma forma de desperdício. E então descobrimos que era uma ilusão. Um a cada mil, chega onde realmente queria chegar. Pouquíssimos se tornam autores publicados, atores bem pagos, pintores que ganham a vida com pintura, etc, etc. A maioria vira funcionário público, barista, professor de inglês… e vive sonhando que será um trabalho temporário.
É muito patético para ser simplesmente “trágico”. É difícil não rir depois que você percebe o ridículo. Não existe aqui nem aquela gravidade solene que habita o trágico.
Essas pessoas, elas infestam nossa rede social. Estão desesperadas para mostrarem seus talentos, seus desenhos, seus textos e suas newsletters. Nós precisamos mostrar a vocês o quantos nós sabemos sobre coisas inúteis. Eu passei horas e dias e semanas e meses e anos aprendendo psicanálise lacaniana, eu preciso exibir isso a alguém.
Eu e meus amigos criticamos arduamente os compradores de Ferrari. É muito “burguês”, muito “capitalista”, é muito desperdício. Não nos ocorreu, obviamente, que estudar Lacan, Lévi-Strauss, Barthes é altamente burguês. E o irônico é que somos todos de esquerda.
Para ler em francês, acessar a uma tal educação, para entender as referências culturais envolvidas nesses autores, é necessário um investimento federal. Por isso somos tarados por universidades públicas, investimentos públicos, editais, sustentados pelo discurso que a cultura é um “direito universal”.
O que estamos buscando não é um direito, é um privilégio. Direito é alfabetização. Ler livros, e bons livros, é um privilégio. Dizer que “educação” e “cultura” são direitos básicos abre um precedente enorme para que a última turnê do Buena Vista Social Clube e a culinária escandinava entrem no pacote.
O que nos dói perceber é que boa parte do nosso direito básico é puro luxo e privilégio burguês; e que nós fomos, esse tempo todo, inimigos da causa operária que juramos apoiar.
E nós alcançamos, desperdiçamos nossa vida. Nisso, somos vitoriosos. Nunca mais participamos de discussões políticas da mesma forma. Sabemos das contradições do capitalismo, da origem do sujeito moderno, das revoluções científicas. Além disso, podemos discutir Balzac, Clarice e Pessoa. Conhecemos a música de Wagner e Villa Lobos, embora prefiramos Bjork, Tom Zé e Dua Lipa. São todos cultura.
Mais recentemente, aprendemos que isso tudo ainda não é suficiente e que pode ser até mesmo prejudicial, porque é tudo ainda muito europeu, muito branco e muito heteronormativo. Aprendemos que estávamos procurando nas fontes erradas, deveríamos nos aprofundar em literatura africana, cinema afegão e culinária Ianomâmi — o que é, curiosamente, absurdamente mais caro.
Ilusões perdidas
Passei a vida temendo a frase “talento desperdiçado”. Meus pais viram um filme com essa frase um dia e passaram a próxima década repetindo ela. Você tem que dizer muitas coisas a um filho para que ele não se torne um idiota, mas eles sempre vão surpreender você com uma nova forma de idiotice, uma que você nem sonhava que era possível.
A vida é desperdício. A evolução avançou por milhões e milhões de anos por tentativa e erro. Para cada acerto, incontáveis erros estavam por trás. Também vemos isso nas nossas invenções humanas. Para cada experimento que dá certo, nos laboratórios, não temos nem noção de quantos testes deram errado, quantos ratos morreram, quantos cientistas passaram a vida bolando soluções para o mesmo problema.
Um talento bem empregado é aquele que é socialmente reconhecido. Ponto. Não interessa se você sabe tocar piano ou bateria muito bem, as Kardashians sempre serão mais talentosas que você.
O talentoso vive a vida esperando esse momento da descoberta que os outros terão — aquele momento em que o mundo finalmente irá dizer, “nossa, como não percebemos isso até agora?!”. E a partir desse momento, eles não saberão como viver sem o nosso talento. Como se o meu livro fosse mudar o mundo e impedir todas as guerras.
Para todos os outros que não caíram nessa lenga-lenga, é obviamente insano. Você pode tentar nos convencer de que é insano e nós não vamos acreditar em você. Seria muito doloroso. Vamos até as últimas consequência, como aquele personagem de Ilusões Perdidas, do Balzac, você já leu? Eu já, e em francês, se me permite mencionar.
Você deve sentir um pouco de nojo na frente de pessoas como eu. Se você é uma pessoa com um pouco que bom senso, é exatamente isso que está sentido, um misto de nojo com vergonha alheia. É um nojo não muito diferente do nojo que sentimos quando alguém pergunta, “você já foi na Champs-Élysées esse ano? Estão com uma coleção de verão incrível!”.
Enquanto alguns decidiram investir em objetos de luxo, eu e minha gangue investimos em conhecimentos de luxo. E, agora que queremos vendê-los, descobrimos que o mercado é ridiculamente pequeno. As pessoas que iriam comprar nosso luxo também estão tentando vender o deles também. Além disso, quem tem dinheiro e interesse de sobra, contrata aquele professor de Harvard ou da USP.
Ao mesmo tempo, a filosofia, a literatura e esse tipo de coisa passa por um tipo de “merdificação”, em que a qualidade vai lá em baixo e quantidade de “experts” aumenta desproporcionalmente.
A montanha mágica
Quando entrei na universidade pela primeira vez, eu tinha muita sede de entender porque vivemos como vivemos — como civilização. Eu achava que isso iria me ajudar a entender como viver minha vida, pessoalmente. E eu entendi muita coisa. E digo mais, eu me tornei quem eu queria me tornar a dez, quinze anos atrás. Estou muito orgulhoso da minha empreitada. Posso considerar que me excedi, inclusive, em muitos pontos.
Exceto profissionalmente. Profissionalmente foi um desastre, como me disseram que ia ser. E eu não acreditei, eu era um jovem sonhador, obstinado e minha função era não acreditar em nada que soasse realista e ponderado.
Além do mais. Depois de ter me tornado o tipo de pessoa “intelectual” que eu havia ambicionado, eu agora me pergunto, “e dai? Eu tenho uma porção de contas para pagar e eu não posso ficar aqui parado”.
Eu acreditei que descobrir o segredo do universo iria me dar uma espécie de plenitude permanente, como um green card existencial. Não dá. O que eu descobri no fim da trilha foi mais uma série de pessoas com mais ressentimento do que qualquer outra coisa.
Eu me senti como um alpinista. Você se esforça horrores para subir uma montanha e você realmente chega lá em cima. A vista é incrível. Seu corpo está mergulhado em cansaço e endorfina. E sabe o que acontece? Você tem que descer.
É isso que a classe média millennial descobriu, que ela tem que descer. Lá em cima tem um resort, mas não temos dinheiro para pagar nem a água de coco que eles oferecem.
A decida exige músculos diferentes. Vemos algumas pessoas subindo e não sabemos muito o que dizer. Sorrimos amareladamente. O que quer que façamos quando chegarmos lá em baixo, uma coisa é certa, depois do que experimentamos subindo e do que vimos lá em cima, nunca mais seremos os mesmos.

